Da ocupação das mulheres

O trabalho, a que as mulheres devem dedicar-se, não obriga a grandes conhecimentos: Tratar os bichos da seda, fiar, tecer, preparar o vinho e o alimento e atender os hóspedes.

Em tempos antigos, o imperador e os príncipes tinham em seus jardins uma alameda, de amoreiras e, junto a ela, Um compartimento destinado à criação do bicho da seda. Este compartimento tinha cerca de três metros de altura e era cercado por uma sebe de espinhos

No terceiro mês do ano, o Imperador, coberto com um barrete cônico de pele de veado e em traje comum, em ar de adivinho, indi¬cava, de entre as suas três rainhas e vinte-e-sete concubinas, aque¬las que a sorte protegia, e incumbia-as de levar os bichos-da-seda para os seus aposentos, Então, as senhoras tomavam em suas mãos os apreciados ovos e lavavam-nos em água fresca. Os bichos eram alimentados com folhas colhidas das amoreiras da alameda, colheita que se fazia depois de seco o orvalho da madrugada.

Quando o trabalho das concubinas terminava, estas juntavam os casulos, que eram apresentados ao Imperador, e depois ofereciam¬-nos à Imperatriz, que os recebia, vestindo o seu mais rico traje bor¬dado, dando-lhes em troca um carneiro, para se banquetearem.

Em dia propício, a Imperatriz dobava três meadas de nos de seda e dividia os casulos pelas três rainhas e vinte-e-sete concubinas, a fim de que estas completassem a dobagem.


O vermelhão e o verde, o preto e o amarelo eram as cores consideradas de maior elegância para bordados e aplicações nos trajes pró¬prios para os sacrifícios. Estes trajes, feitos de sêda preparada pelas senhoras do harém, eram usados pelo Imperador, por ocasião da oferta de sacrifícios aos seus antepassados.
As mulheres, presentemente, de modo geral, são preguiçosas e gostam do descanso, levantando-se tarde do leito e freqüentando os teatros.
Devem todas atentar no exemplo da Imperatriz e das rainhas, no cuidado com que alimentavam os bichos-da-seda, não se furtando ao trabalho, fiando tecidos finos e grosseiros.
Porque será que, presentemente, tanto as mulheres das classes elevadas, como as do povo, vivem na indolência, procurando o descanso?
Nesses tempos antigos, logo que surgia o terceiro mês do ano, um decreto imperial proibia terminantemente que fossem matrata¬das as amare iras e os lugares da criação dos bichos-da-seda. A caça era defesa nas matas imperiais, e as rainhas e concubinas não a co¬miam.
Era a Imperatriz quem, primeiramente, virada para o nascente, se debruçava e colhia as primeiras folhas de amoreira. E, então, in¬cumbia as rainhas e as concubinas de procederem à colheita, reco¬mendando-lhes que fossem simplesmente vestidas, não levando consi¬go criadas, que pudessem auxiliá-las, a fim de que só elas pudessem seguir seus bons exemplos.
As terras abandonadas, ao sul da capital, eram lavradas pelo Imperador, auxiliado pelo povo, a fim de que o painço não faltasse para os sacrifícios anuais.
A Imperatriz alimentava e criava os bichos-da-seda, preparando os trajes próprios para os sacrifícios da Coroa.


Assim, manifestavam o Imperador, os príncipes, a Imperatriz e as princesas a sua simplicidade e reverência.
Só quando seja perfeita a reverência, se podem adorar os deuses. A mulher deve levar vida de trabalho constante porque, se dei¬xar de fiar, o povo morrerá de frio.
O homem deve casar aos trinta anos e a mulher aos vinte.
A mulher deve saber dobar e trabalhar em tecidos de cânhamo, cultivando a arte de combinar as cores elegantemente nos bordados dos trajes próprios das cerimônias dos sacrifícios.
Não sabendo trabalhar, as mulheres das classes elevadas não poderão obedecer a seus sogros, assim como as mulheres das classes pobres não poderão servir seus maridos, nem cuidar de seus filhos.

E assim reza a ode:
"Devem tecer e bordar
Os finos dedos da noiva.
Não tendo negócios públicos, Só poderá a mulher
Criar o bicho-da-seda,
Tecer panos e bordar.
Quando chega a Primavera, Chega também o calor.
Inicia o verdelhão
Seu cantar anunciador.
As raparigas transportam,
Em seus braços, fundos cestos, Por carreiros apertados,
Em busca das tenras folhas
Das amoreiras dispersas".